
Pena não, pau!
Desculpa te enrolar tanto para chegar aonde quero, mas é difícil ficar limitado a uma só história quando se fala da PM. Como dizia no início, estávamos eu e outro soldado indo atender a mais uma ocorrência sem futuro. Uma mãe revoltada nos pedia para que fôssemos até à sua residência acalmar seu filho, que estava quebrando tudo dentro de casa e ameaçando seus familiares com uma faca peixeira. Provavelmente ele estava tendo uma crise de abstinência, pois exigia dinheiro para comprar crack e estava visivelmente transtornado.
Autorizados pela mãe, entramos na residência e, em meio aos destroços dos móveis e demais objetos espalhados pela sala, iniciamos o diálogo na tentativa de persuadí-lo. Em vão! Primeira tentativa frustrada, mas a conversa resolve 90% das ocorrências e continuamos a gastar saliva. A essa altura o nível de estresse tanto do perturbado quanto o nosso já era alto e a atenção redobrada . Foi quando de supetão o maluco parte contra mim com a faca em punho (aliás, sempre sou premiado, deve ser por causa do meu 1.70m). Instintivamente, eu e o outro soldado utilizamos o bastão para nos defender até conseguirmos dominá-lo. Não durou cinco minutos, mas a sensação é que dura muito mais tempo, a julgar pelo desgaste físico depois. Como tudo foi muito rápido não sei como escapei ileso, acredito que só tenha conseguido responder à ação por ter mantido uma distância segura do noiado. Não vou negar que exagerei na dose do “calmante”, nessas horas é díficil não ser passional e se exceder, pior para ele que não nos escutou. A mãe também estava revoltada mas para minha surpresa não ficou contra nós. O que, pasmem, geralmente acontece nesses casos.
- Dê uma surra nesse caba de pêia!
A que ponto aquela família chegou. Sequer a mãe tinha compaixão pelo vagabundo. Ela não sentia pena, não era nós que sentiríamos. Isso somente no calor dos acontecimentos. Na volta para Delegacia, com a cabeça fria, comentava com meu colega sobre essa tristeza, que me sensibilizara, que a droga é uma merda mesmo, o crack então a pior de todas… Perguntei-lhe se não sentia pena (da mãe, é claro) quando ele responde secamente:
- Nessas horas eu só tenho pena é do bastão!
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